



Mais um desafio que veio através da Teresa de ematejoca azul: contar a história da nossa vida. Eu não vou começar pelo princípio, parto precisamente do presente para trás. A minha vida é a coisa mais desenxabida que pode haver.
-Vivo nesta encantadora cidade do Porto, onde todos os dias eu vejo o rio e o mar, é só descer a minha rua que não é bonita, mas tem uma igreja e aos domingos acordo com o sino a tocar. Hoje ao acordar relembrei um dos episódios surrealistas que ao longo da minha vida eu tratei de ir semeando. Se hoje tenho este blog foi graças a esse episódio.
-Em finais de Julho do ano passado fui defender a minha dissertação de mestrado toda contente, como uma Leonor vai pela verdura. Ia formosa e muito segura, lá isso ia, não fosse terem-me feito "arrabbiare" e vai daí eu estrebuchei.
-Ora bem, o que aconteceu foi eu ter levado um excelente power point que não pôde ser projectado convenientemente. A sala encontrava-se desarrumada, uma das janelas teve de ser tapada com um saco preto do lixo, enfim, o que mais poderia acontecer?
-Pois, mas aconteceu mesmo. Ao abrir o ppshow não é que aparece uma foto do meu orientador, em que por baixo se podia ler:"MY TEDDY BEAR".
-Uma boa amiga minha bem quis ajudar a tirar aquilo dali, mas tudo parecia contrariar as suas valentes acções. Eu encostada a uma mesa ia assistindo já a remoer que ia fazer das minhas.
-A Srª Arguidora era uma daquelas professoras formatadas que, com a minha idade, eu já não tolero. Fiz-lhe o favor de a ouvir até ao fim, mas santa paciência, no final, quando chegou a minha vez de defender o meu trabalho eu pensei: ou faço aqui um discurso que não me serve para nada,( já que o ppshow foi completamente arruinado pela falta de profissionalismo de certos funcionários daquela faculdade), ou eu faço o mesmo que Obélix fez. E foi o que eu fiz, mas em vez de dizer "estes romanos são loucos", disse: "aconselho a Srª Drª a reler o meu trabalho". Recusei defendê-lo e vim com o mestrado concluído.
-Vim também com muitas flores nos braços neste dia memorável. Boas e grandes amigas fiz na faculdade de letras.
Passemos adiante, uma paixão que me levou ao fundo do poço, com vontade de morrer, doente, com um enorme papo no pescoço, biópsias para cá, biópsias para lá, uma biópsia cirúrgica e outro episódio atípico. Chego ao bloco operatório com um fato maior do que eu, reclamei logo que só fazem roupa para gente grande, olho para o tecto e digo que "devia ter trazido os óculos escuros" e zás, acordei. Pergunto as horas à enfermeira, passaram 3 horas desde o início da operação, peço que me emprestem um computador, peço que me dêem os meus brincos, pergunto se estou muito despenteada. Levam-me do recobro para o recobro posterior e aí começam os meus problemas. Arritmias em catadupa, a pulsação nos píncaros, as tensões elevadissimas, uma sonolência insistente e atribulada, as cortinas a fecharem-se, o médico anestesista com as enfermeiras à minha volta, um electrocardiograma e uma injecção para o coração. Estive assim 3 horas seguidas. De repente comecei a recuperar, sento-me na cama, ponho, finalmente,os meus brincos, penteio-me, coloco o travessão a segurar o cabelo, pinto os lábios.
Olho à minha volta e vejo só caras de outras mulheres, com ar de maltratadas pela vida, todas elas acabadinhas de fazerem a laqueação das trompas. Todas elas a queixarem-se de dores, mas todas muito simpáticas quando me viram reagir. Coitadas, ficaram assustadas, em silêncio, à espera que me desse o badagaio. Foi então que me lembrei do dia em que conheci aquele que veio a ser o meu marido durante 28 anos. E não foi por acaso, mas por ter reparado que aquelas mulheres tinham por maridos uns broncos. Dei por mim a pensar que mesmo separados ele estava ali ao meu lado, dando-me a mão e chamando-me de "anjinho".
-Estudava em Coimbra na Faculdade de Medicina, fui passar um fim-de-semana à Figueira da Foz e através de outra pessoa conheci um belo moreno de cabelo preto, cor de azeviche, ar exótico, de ascendência mista, peruana, chinesa e portuguesa. Ele era do MRPP e eu da UEC. Tudo romantismos e idealismos de trazer por casa.
-Eram aproximadamente 6 horas da tarde, combinámos tomar um café depois do jantar e a seguir um passeio pela praia, era já de madrugada. Nesse dia começámos a namorar, éramos os dois decididos, jovens e apaixonados. Um ano depois casámos.
Viemos, então, viver para o Porto. Deixei Medicina e fui para Pintura, depois de muitas lutas com os meus Pais. Lá tinham as suas razões, agora podia ter uma vivenda na Foz, mas nunca me arrependi, nem agora que não posso mais pintar com resinas e óleo, o meu prato forte. É como se me tirassem a memória dos cheiros de criança, do cheiro do arroz-doce em casa dos meus avós maternos, da borracha, da lousa cor de rosa, da primeira pasta com a Branca de Neve, do cheiro dos claustros do colégio, em Viana, minha terra natal, ou do som do violino nas mãos do meu avô paterno enquanto eu comia torrão de alicante.
-Desses tempos inesquecíveis, em que andava com as grades e as pastas de desenhos atrás de mim, os jantares bem regados com colegas e professores, ainda mantenho o primeiro cavalete oferecido pelo meu Pai, assim como a malinha das tintas feita nos Estaleiros de Viana do Castelo. Os primeiros óleos, da marca inglesa Rowney, foram-me dados por um primo que, na altura, fazia o mestrado em Londres. Os meus trajes ora eram de colegial, ora de rapaz, cabelo muitissimo curto, camisas brancas e gravata, tendo dado lugar a grandes laços que variavam do pescoço para o cabelo e em aplicações nos sapatos.
Mas as minhas indumentárias sempre variaram ao longo da minha vida. Cheguei a andar descalça em Coimbra, com vestidos compridos de bordado inglês, camélias no cabelo oferecidas todas as noites pelo filho do restaurante onde costumava jantar. Fazia vida de diletante, quando me apetecia ia sozinha almoçar ao restaurante do hotel. Os meus amigos eram quase todos de Direito e quase todos do MRPP. Muitos autocolantes do PCP lhes vendi. Foi em Coimbra também que entrei para o teatro académico, mas pouco tempo estive.
-Primeiro exame de Anatomia: entrávamos à vez, em cima das mesas havia vários órgãos com alfinetes que devíamos identificar, artéria de não sei quantos e por aí fora. Bem eu olhava para eles e o coração parecia-se com o fígado, como havia de me desembrulhar? Mas com sorte lá vim com vinte na prova teórica e dezasseis na prática. Foi quando me apercebi que um dia ia ser uma péssima médica. Sempre fui dotada para a teoria e para o pensamento abstracto.
Aqui interrompo para tomar o meu chá. Seguirá noutro dia.
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